segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Euclides Voador (parte 2)


Em pouco tempo, todos já sabiam daquela história. Havia um rapaz por aí que estava dizendo que faria o homem voar. Em todos os lugares comentavam o caso, e todos queriam saber de Marcelo a veracidade dos fatos.“Onde já se viu homem voar, nem aqui e nem em lugar nenhum do mundo!”, gritava Doutor Batista, com seus bigodes finos e pretos, que quase davam uma voltinha nas pontas. Todos acreditavam nele. O que Doutor Batista dizia, era ouvido por todos. Não era prefeito, não era rico, mas era muito sabido, ou ao menos tinha essa fama. Tinha uma biblioteca imensa em sua casa, e vez ou outra escrevia artigos polêmicos para o jornal que ali circulava. Naquela semana foi sobre o assunto mais comentado. Pedia para toda população não acreditar no que andavam dizendo. Homem não voa mesmo.
“É o Euclides da história tia?”, perguntou o menino. “Marcelo, vá se deitar. Está tarde já”, tentou disfarçar Yolanda. O menino continuava parado na sua frente, com o um olhar que insistia em perguntar “É ele? É ele mesmo tia?”. Não teve como fugir. Yolanda sentou o sobrinho no sofá. Era melhor contar. Ele queria saber, que seja assim. “É ele. Eu lembro-me direitinho daquela manhã. Estávamos brincando, quando de repente ouviu-se um barulho. Um barulho imenso. Começaram a gritar, chamar as crianças. Foi uma correria”. O menino ouvia atentamente. “Euclides me puxou e fomos ver o que estava acontecendo. Todos olhavam para o céu, mas nós não conseguíamos ver. Então ele saiu do meio de todos, correndo. Correu, correu tanto que nunca mais foi visto. Escafedeu-se”. “Mas dizem quem...”, tentou argumentar o menino. “Dizer todos dizem. Depois que Euclides sumiu, a mãe dele chorou tanto. Que dó dela. Mas sempre me disse que sabia que um dia o filho ia voltar. Não conseguiu esperar, mas ela estava certa. O pai dele também morreu. Ficou tão triste com o sumiço do filho,que nunca mais saiu de casa”. “Eu já ouvi dizer que ele tinha morrido”. “Lenda Marcelo. Euclides virou lenda na cidade. Tinha gente dizendo que ele tinha virado indigente na capital. Outros que ele tinha morrido por aí. Tinha gente dizendo até que ele era escolhido de Deus e tinha virado anjo”.
Doutor Batista andou circulando os arredores do galpão. Ah, não era bobo. Queria ver mesmo se era verdade essa história de que tinha um rapaz que faria o homem voar. Já anoitecia, quando seu velho carro, após ter enfrentado uma mata imensa chegou ali. Queria arranjar um jeito de observar o que estava construindo. Viu ele, movimentando, mexendo nas ferramentas, martelando daqui e dali. Simplesmente, aquilo que iria surgir era maravilhoso. Seriam asas que nos faria voar, como funcionaria tudo. Não sabia. Jamais naquela cidade haviam visto um avião, ou algo do tipo. Estavam atrasados no tempo.
Yolanda mexeu nas suas coisas. Reencontrou um retrato de Euclides, ainda criança. Os dois. Agora, ele o chama. Ligou para sua casa, a mãe atendeu, mas não entendeu nada. Ele apenas pediu para avisá-la. Para que fosse no lugar que ela sabia, tal hora. Queria vê-la. Chegou no horário. Bonita como sempre. Marcelo seguiu os passos da tia. Sabia sim, que iria se encontrar com Euclides. Euclides estava belo. Parecia noite de festa. “Por que você me chamou aqui?”, perguntou Yolanda. Ele pegou-a pela mão, deu os braços para ela. Ela não estava entendendo nada. Ele sorria para ela, como quando eram crianças. “Onde você esteve esse tempo todo?”, tomou coragem e perguntou. “Disseram até que você tinha virado anjo!”. Ele achou graça. “Eu fui conhecer o mundo”. Yolanda achou estranho. “Você conheceu o mundo correndo?”. Ele riu mais uma vez. “Correndo e voando, eu poderia dizer”. Ela não entendeu. Ele percebeu. “Não dê ouvidos para que essa gente anda dizendo, o homem pode voar sim”. “Mas como? Não pode, não temos asas, entende?”. “Pelo mundo a fora, a gente está voando há um bom tempo, Yolanda”. “O que era aquilo que passou no céu naquele dia?”. Ele tentou explicar. “Era um avião!”. “Um avi- o quê?”. “Avião! É uma espécie de uma máquina que permite que o homem voe”. “Mas é?”. Ele pediu para que a moça o acompanhasse até o galpão, precisava-lhe mostrar algo.
Doutor Batista liderou uma manifestação. Queriam acabar com Euclides, diziam até ser uma assombração. O Padre Geraldo, na igreja Matriz, pregava para as beatas a condenação do rapaz. Onde já se viu, ir contra as leis da natureza, Deus não deu asas para o homem, então que assim seja. Anunciou-se, por meio de falatório, fofoca, boca-a-boca, que o tal iria mostrar seu invento. Ninguém poderia faltar. Riam, diziam que ele não passava de um doido varrido.
“Isto é um avião?”, perguntou Yolanda, diante de uma construção que ela nunca tinha visto antes. “Não, querida, isto não é um avião”. Seus olhos brilharam. Quis tocar. Era impressionante de tão bonito aquilo. “Você que fez?”, perguntou. “Fui eu sim. Estudei muito pelo mundo para fazer isso. Tinha que voltar aqui. Mostrar para você que o homem voa e é lindo ver tudo lá de cima”. Ficaram em silêncio. Ela pensou. “Mostrar para mim?”, disse. Ele gaguejou. Ficou sem graça. Foi pego no pulo. “É, eu quis dizer, para você, para vocês aqui da cidade. Vocês que ainda acreditam no passado, sendo que a gente está muito além do futuro, entendeu?”. Euclides se aproximou do imenso objeto. Pegou uma flanela em seu bolso, deu uma lustrada. Bonito, estava brilhante. Como devia ser. “Nunca ouviu falar de Santos Dumont?”, perguntou ele. Yolanda observava encantada. “Então era para eu ver?”. Era não tinha como negar mais Euclides. “Vem comigo”, puxou-a pela mão. Subiu ali. “Eu não vou subir não”. “Vem comigo, vem!”. Tomou coragem e foi. Aquilo começou a levantar vôo. Quando ouviram lá debaixo. “Eu quero ir também!”. Marcelo olhava para cima, e seus olhos brilhavam. A pipa estava em sua mão. Euclides debruçou, se equilibrou, quase caiu, mas conseguiu ainda pegar na mão do menino para puxá-lo para dentro.
Então, estavam todos impressionados. Doutor Batista não viu. Foi para outro lado. Sabe-se que morreu, ao tentar, com asas costuradas na manga do paletó, pular de uma pedra. E naquele lugar as coisas passaram a acontecer como nunca havia acontecido. Assim, na rapidez da vida surpreendente, os anos passaram tão depressa, que ninguém percebeu. Teve gente que correu, teve gente que ficou. O galpão havia sido destelhado. Todos agora cercavam aquele lugar. E de lá de dentro o pequeno menino surgiu. Uma moça também. Juntos de Euclides. Subiram aos céus, e se confundiram com todas as estrelas a bordo de um dirigível. Tão iluminado, tão belo. Quiseram correr aqueles que pediram para ele voltar, como da outra vez. Não tinha mais volta. Jamais se desconfiou das coisas naquela cidade. Tudo era possível. E se o maior desejo de um homem é voar, e Euclides voou.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Euclides voador (parte1)



Naquele lugar poucas coisas aconteciam. Assim, na lentidão de uma vida silenciosa, o que tinha de acontecer, aconteceu. Rápido demais. Corram crianças, corram! Venham ver! Meninos apareciam de todos os lados, uns se penduravam nas janelas. As mães gritavam, os pais se emocionavam. Mas que coisa mais linda! E todos observavam no céu, a coisa mais fabulosa que havia se visto. Um punhado de gente se acumulou naquele lugar, gritos e gritos, sorrisos e dedos apontando para cima. E no céu, assim, de uma hora para outra e vupt! Saiu daquela nuvem branca macia e suave da esquerda, e perfurou outra, tão imensa quanto na direita. O homem gritava: o que é isso? O que é isso? Espere! Espere! E o pequeno saiu de lá do meio, correndo, tão veloz na terra, quanto o aquilo que seguia no céu. Continuou a gritar, e se pudesse voaria lá para cima. E os outros correram atrás do menino. Volte, Euclides, volte!

***

Era ainda um menino, mesmo que tivesse pernas compridas. Vestia uma calça curta, estava agachado naquele lugar. Sentiu um pouco de medo, quando subitamente, algumas nuvens negras começaram a aparecer no céu. Rapidamente, uma brisa mais forte, levantava, mesmo sem força, a pipa. Pegou-a no chão, olhou bem, para ver se não tinha nenhum furo, mas nada. Realmente, o problema não era do seu brinquedo, restava apenas a colaboração do vento. Estava no meio do nada, mata por toda sua volta naquele lugar, tão distante da vida dita urbana da pequena cidade. E se chovesse, como prometia, chegaria encharcado em casa, certamente levaria um pito da tia e ficaria de castigo. Mas nada poderia estragar aquela aventura. Respirou fundo o menino, correu um pouco, jogando a pipa amarela remendada, com a rabiola colorida para o ar. Correu, e lembrou-se de uma história que lhe contaram. Na verdade, ouviu falar. Escondido, atrás da porta. Mas não desapareceria para sempre como o garoto da história. Inesperadamente, talvez por força divina, o sopro foi mais forte. Tão forte, que por pouco, ele também não voou. A pipa dançou no ar, de uma maneira tão bela, como se fosse bailarina em palco de teatro. Dançou, dançou, e restava ao pequeno correr atrás dela. E ela foi, e ele, entre matos, terra, e atenção com os buracos, e porque não, alguns animais que podiam estar escondidos, correu até perceber que a pipa tinha ficado presa. Era um galpão. Nunca tinha visto aquele lugar, muito menos ouvido falar dele. E a pipa lá, no teto.
Aquele galpão estava abandonado há tempos. A mata já crescia rapidamente ao redor. De noite, era perigoso chegar lá. E de dia, o acesso só por uma estradinha de terra. O garoto esperou em vão outro vento forte bater por aqueles lados para, talvez, desenroscar a pipa do teto. Parecia que não tinha sinal de vida. Mas tinha. Ouviu algum barulho dentro do prédio. Alguém falava algumas coisas. Pela fresta do imenso portão, era possível ver o feixe de luz, mesmo que fraca. Curioso como qualquer criança, foi ver o que era. Aproximou-se, enquanto os primeiros trovões anunciavam no céu. E viu lá dentro um homem. Sentado em uma cadeira velha de madeira, debruçado em uma mesa, enquanto uma lâmpada de fraca voltagem iluminava alguns papéis que ele mexia. Não conseguia ver seu rosto. Não sabia se era velho ou novo. Tinha muita coisa em volta dele. Algumas ferramentas, muita madeira. E ele ria. E o menino viu. E ficou impressionado. O homem levantou-se da cadeira, pegou um papel na mão, que mais parecia um invento, cheio de rabiscos que tinha. E ouviu-o dizer com todas as palavras: “Agora é que eu vou voar”.
“Imagine Marcelo, onde você viu isso?”, perguntou Yolanda, descrente da história que ele contou. “Não, eu vi, juro!”, ele dizia sentado na calçada, enquanto a tia varria o chão. “Onde você viu isso, querido?”, insistia ela. “Lá, lá no meio do mato, perto daquela estradinha de terra, perto da divisa...”, e a tia deu uma bronca nele: “Meu Deus, você não pode ir até lá. Você sabe que é perigoso”. “Tudo bem tia, mas eu juro, eu vi um homem falando que ele ia voar”. “ E onde já se viu homem voar?”, pensou.
Ficou pensando durante aquela tarde. Não dormiu a noite. Pulou da cama, e ainda estava escuro. Abriu a janelas. Esperou o sol aparecer por de trás do morro, e saiu. Queria ter sua pipa de volta. Mas estava mesmo intrigado com o que tinha visto e ouvido do rapaz. Yolanda deu pela falta de Marcelo já no café. Não foi a mesa, e quando foi acordá-lo, não estava lá. Imaginou de imediato onde teria se metido, visto o interesse pela história que ouviu. Essa coisa de voar. Era melhor ir atrás do garoto.
“Quem é você?”, perguntou o menino. Estava assustado. Era um desconhecido, mas se achou corajoso, mesmo de trás de uma moita, e resolveu perguntar. Ele olhou para Marcelo, dando um sorriso simpático. O garoto achou estranho as roupas que usava, umas luvas, uns óculos estranhos. O homem aproximou-se dele. “O que está fazendo por aqui, menino? Não é muito longe da sua casa?”. “Quem é você?”, insistiu. “Foi você que perdeu a pipa, veio buscar não foi?”. O menino o olhava desconfiado. O rapaz devia ter no máximo trinta e poucos anos. Não era muito alto não, mas nem muito baixo.
Chamou ele para dentro do galpão, afirmando que guardou a pipa muito bem. Marcelo, lentamente, entrou pelo grande salão. E seus olhos brilharam. “O que é isso?”. “Esta é sua pipa, não é? Aqui está garoto”, disse ele, entregando ao menino seu pertence. Ele estava estático. O homem tirou as luvas, e olhou com orgulho aquilo que estava diante dos dois. “O que é isto? Quem é você?”, repetia o pequeno, sem saber o que estava dizendo, totalmente encantado. “Isso voa como a minha pipa?”. O rapaz riu. Achou graça. “Espero que voe”. “Cabe alguém aí?”. “ Sim, devem caber umas duas ou três pessoas, pelos meus cálculos”. “Não”. “Não?”. “Não, o homem não voa”, disse o menino, cético. “Pelo mundo a fora, que vocês aqui não conhecem o homem voa sim, e há um bom tempo”. Marcelo, com sua pipa em mãos, não conseguia acreditar no que via. “Bem, eu ainda não respondi a sua pergunta”, disse o rapaz. “Quem sou eu... meu nome é Euclides”. “Euclides?”, ouviu-se do portão. Era a voz de uma mulher. Yolanda. “Yolanda?”.



(continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Para seguir

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

[ Fernando Sabino]

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Por causa do amor



Os sapatos nunca foram seu forte. Eram brancos e estavam ralados, aparência antiga. Um tanto mal cuidados. Salto alto, bico fino, coisa para festa e, talvez, quem sabe, seriam os mesmos que usou quando debutou. Os pés continuavam pequenos. Desceu do ônibus, linha 455, direto do Méier. Saltou na calçada e, como brincadeira de criança, só pisou nas ondas pretas de Copacabana, o que contrastava, simpaticamente, com os velhos e brancos calçados. As pernas se escondiam atrás do pano estampado azul, do vestido largo e longo, que colava em seu corpo, quando andava contra o vento noroeste, de passagem anunciando chuva na tarde de quinta feira. Caminhava livremente, tendo o mar como paisagem de fundo, que se alguém pudesse, deveria fazer da cena um cartão postal - mesmo que a cena ainda fosse ora interrompida com as trovoadas.

O chapéu de abas largas voou com uma brisa mais forte, se perdeu entre as pernas das pessoas que passeavam na orla. Deixou ir embora, para sempre. Riu com uma graça que só ela entendia. Não trazia muitas coisas consigo. Ajeitou os cabelos dourados para que não voassem na cara. Lembrou-se dos tempos de menina, quando conhecera o mar, na única viagem que tinha feito para a cidade maravilhosa. Parecia que podia ver, ali ainda, seu pai, ainda jovem, sorrindo orgulhosamente enquanto sua menina corria e apontava alegremente o mar, exclamando: “Como é grande! Como é grande!”.

Tão distante a vida do mar, que só via em imaginação ou na tela da televisão. Seu pai a trouxe de tanto que o amolou. Agora sentira saudades do mar, e então voltou. Descalçou os sapatos ralados e, com os pés no chão gelado, subiu na guia da calçada e andou, com os braços abertos, equilibrando-se como estivesse numa corda bamba. Era aquela menina de volta. Pode ainda sentir-se vestindo o pequeno vestido fitado que a mãe fizera especialmente para a ocasião. Riu ainda, no mesmo lugar da cena, pois levou uma bronca dela por tê-lo molhado no mar.


Os delicados pés descalços aproximavam-se da água fria que voltava a banhar por parte aquele corpo que outrora banhou quando menina. Rever o mar era a felicidade.
Ensaiava timidamente, na solidão de uma praia lotada, o mergulho. Foi sem medo, sem receios, sem pudores. Segurou o vestido azul na cintura, e se foi. Saltou naquele oceano a sua espera e nadou, não muito longe, pois não se garantia no fundo. E sabia que apesar de tão belo, era traiçoeiro.

Do outro lado da rua, os olhos castanhos a acompanhavam. Os dedos grossos da mão masculina se aproximavam da boca, como se admirasse e olhasse em detalhes a menina que caminhava ali adiante. Uma coçada no rosto, barba do dia anterior. A caneta saltou do bolso e se aproximou do guardanapo sujo e escreveu. “Ela”. Coçou a barba. “Os sapatos nunca foram seu forte. Eram brancos, estavam ralados, aparência antiga.”. Dobrou o guardanapo, guardou-o no bolso. Deixou o dinheiro em cima da mesa e saiu.

No relógio, tudo passava lentamente, cada segundo era minuto, enquanto minutos se transformavam nas horas mais extensas vistas. Quieto ele não ficaria, as mãos mexeriam sozinhas como se tivesse vida própria. A caneta voltou a saltar do bolso, mordida na ponta, dançando entre os dedos. Procura pelo guardanapo escondido no bolso de trás da calça. “Ela”, ele lê. E a frase que segue não lhe soa bem, risca verticalmente, e para passar o tempo, horizontalmente, e visto que o tempo não passa, diagonalmente. Diante dele, o mar. Visto de longe, de costas para quem o vê, mas cara a cara com o oceano, poderiam colocar uma moldura: apenas sua silhueta é vista sem definir qualquer detalhe que seja. Enquanto no céu, talvez por força divina, para quem assim acredita, um tom alaranjado avança pelo horizonte, encostando-se num azul límpido do mar.

Achava por ora que ela também o via. Mas disfarçava. Disfarçava bem. Sempre se espera alguma coisa da vida. Com os pés na areia, uma mão segurava o par de sapatos, e a outra levava a boca, o velho cigarro Hollywood sem filtro. Entre os dedos, uma coceira insistente tomava conta de si junto de certa inquietude que sempre lhe acompanhou. Diante do mar, deixou o guardanapo voar, embora a frase continuasse na cabeça. “Os sapatos nunca foram seu forte. Eram brancos, estavam ralados, aparência antiga.”.

Mais traiçoeiro que o mar, certamente, é coração de homem, quando o pega desprevenido. Homem não entende dessas coisas de amor, tão frágil diante de uma mulher que desperte sua atenção. Foi assim que ela saiu do mar, molhada de sal, cruzou por aquele rapaz, segurando o paletó pelos ombros, os botões da camisa abertos mostravam parte do peito. Olhos negros cruzaram sutilmente com olhos claros, debaixo da promessa de chuva, ao olhar atento de Cristo. Caminhou despretensiosamente pela areia fofa de Copacabana, enquanto a movimentação na Avenida Atlântica aumentava devido o horário. Mas ninguém se importava com ela. Nem ela com eles.
- Moça!
Ela olhou com curiosidade. Com o azul molhado. Com o coração errante.
-Moça! Preciso entregar-lhe uma coisa.
Curiosidade mata, dizem por aí.
Passou a mão pelo bolso traseiro. Nada de papel, nada escrito. Nada.
Ela esperava.
-Está aqui, preciso te entregar...

E ela correu pro mar. Os olhos dele seguiram-na. As pernas acompanharam. Eles sorriam. Sorriam no mar. Foi assim que alguma coisa aconteceu. Ninguém mais teve notícias. Há quem diga que o garçom, lá da frente, encontrou noutro guardanapo os dizeres: ‘enfim, sós’. Nada mais se soube. Mas pelo menos foi isso que ecoou pelo resto daquela noite de quinta feira no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Feliz Aniversário"



Bem cedo, quando entrou na cozinha e viu a folhinha pendurada na parede, Dona Beatriz lembrou-se da data. Foi até o calendário, arrancou o dia anterior e viu: 31 de dezembro. Ora, Ora, Dona Beatriz, meus parabéns! Como poderia se esquecer de uma data tão importante como esta, afinal, seu aniversário! Fez rapidamente, ou não tão rapidamente, as contas. Setenta e cinco anos. Não se faz setenta e cinco anos todo dia. Como tinha passado o tempo, não? Até outro dia tinha seus vinte anos. Sentiu-se bem. Abriu as janelas de seu apartamento, pegou um copo e com toda calma molhou as plantinhas. Conversou um pouco com elas. Tinha esse costume de conversar com as plantas. Não só com as plantas, mas com as paredes, com a geladeira. Falava sozinha, contava histórias para si mesma. E se divertia, por que não?
Foi até a mesinha de telefone, que, por sinal, nunca tocava, pegou a agendinha e conferiu os endereços e números de alguns velhos amigos. Riscou alguns nomes - já deviam ter morrido - e os outros não viriam. Nem adiantava ligar. Era sua maior tristeza em toda a vida: nunca tivera uma festa de aniversário. Também, deu de nascer bem no último dia do ano, quando toda a família se reunia para ver os fogos e os amigos preparavam a lista de promessas. A única que ela fazia era para que no ano seguinte pudesse fazer uma festa de aniversário. Nunca foi possível. Há alguns anos ela deixou de fazê-la. Talvez por falta de memória, pois sua cabeça não estava tão boa assim. Mas eram setenta e cinco anos. Não custava tentar. Antes tarde do que nunca. Voltou a folhear o caderninho, procurou pela letra, A, B,C...Carmem. Será que a Carmem viria? Ligou. O telefone tocou. Tocou. Partiu para a letra seguinte. Dulce. “Alô?”. “Alô? Quer falar com quem?”. “Por favor, a Dulce?”. “Quem gostaria?”. “É Beatriz, uma amiga dela”. “Quem?”. Preferiu desligar. E, F, G, H. Hilda. “Alô? Beatriz querida, quanto tempo. Não amor, olha, me desculpe, mas hoje toda minha família se reúne em casa. Meus filhos, netos, bisnetos. Não vou poder. Mas olha, todas as felicidades do mundo. Ia mesmo te ligar”. Não, não ia. Tentou mais a letra I, J, K, L. Parou no M. Ninguém iria querer comemorar com ela seus setenta e cinco anos. Sem problemas. Faça seu bolo, arrume a casa, enfeite a sala. Hoje é seu aniversário, e não importa que o resto do mundo deseje “Feliz ano novo”, hoje é dia de “Feliz Aniversário”.
Correu para cozinha. Revirou as gavetas, procurando a receita do bolo preferido. O mais doce. Quem se importaria com diabetes no septuagésimo quinto aniversário? Ora, não tinha mais o que perder. Preparou-o, confeitou-o, tão bonito. Colocou na geladeira, correu para a sala. Deu uma arrumada, ajeitou as plantas perto do sofá. Elas participariam da festa. Abriu o guarda-roupa, tirou o vestido mais bonito, aquele que ela usou na viagem ao Rio de Janeiro, com seu falecido marido, lá pela década de cinqüenta. Depois, foi ao cabeleireiro. Queria ficar bela. Levou uma revista de famosos, com a estrela da novela na capa. Apontou: “Quero assim meu cabelo”. As mulheres falavam, falavam, falavam, e perguntavam umas as outras “Onde vai passar a virada?”, “E o Reveillon onde será?”, e o assunto era esse. Na despedida, todas desejavam “Bom Ano!”, “Feliz ano novo!”, e Dona Beatriz apenas retribuía com um aceno simpático.
Já anoitecia. Toda glamurosa, chique, permitiu-se pegar um táxi. Afinal, era seu aniversário. Sentou-se no banco de trás e pediu ao motorista para que a levasse para casa. Pediu também para que ele passasse antes em algum mercado. Comprou bexigas e velas. Todas coloridas. Chegou em casa, encheu algumas. Deixou-as espalhadas pela sala. Tomou seu banho, sem deixar estragar o penteado. Colocou o vestido, se perfumou. Levou o bolo na mesa, as velinhas. Sete e cinco. Opa. A vela do cinco quebrou ao meio. Como faria? Não importa, quem iria ver? O que valia era a festa. O bolo em cima da mesa, apenas com o número sete, que agora significava setenta e cinco anos.
Estava muito cedo. Festa que é festa começa tarde. Esperou o tempo passar. Colocou uma cadeira próxima à janela e avistou a vizinhança. Pessoas de branco, felizes chegavam à casa dos parentes. A mãe recebia os filhos, a avó, os netos. Alguns maridos recebiam amantes sem a desconfiança da mulher. O homem do alto do prédio preparava os fogos. E nessa distração, adormeceu.
Era pouco antes da meia-noite, quando o falatório se intensificou. O vizinho de cima já cantava desafinadamente “Adeeeeus ano velho...Feliiiz ano novo”. A moça do lado gritava, sabe-se lá por quê. Os amigos conversavam e riam alto. Dona Beatriz acordou. Olhou no relógio e percebeu que em poucos minutos já seria o dia seguinte e, pior, o ano seguinte e ela mais uma vez não conseguira fazer uma festa? Não poderia. Levantou-se, correu para a cozinha, pegou o fósforo e acendeu as velas. Ou melhor, a vela. Apagou a luz e, em uma só voz, começou: “PAAAAAAAARABÉÉÉNS A VOOOOCÊ...”. Mas imediatamente foi interrompida. DEZ!... “Nesta data querida...”. NOVE!OITO!“Muitas felicidades”. SETE! SEIS! “Muitos anos...” CINCO! “de”... QUATRO!... “Vida!”. TRES. DOIS. A campainha tocou. UM! Enquanto o sopro era interrompido, ela pensou quem poderia ser. Não, não, a Hilda não viria. Quem viria? Não havia conseguido falar com nenhuma pessoa. Seguiu até a porta ao som de rolhas estourando, desejos de felicidades. Olhou pelo olho mágico da porta e não viu ninguém. Abriu-a lentamente, achando que se tratava de uma brincadeirinha sem graça de algum desocupado. Nada viu, mas ouviu. “Bom ano, moça!”. Mas que graça. Era uma menina linda, sorriso no rosto, brilho nos olhos. Dentes faltando, deveria ser da idade. Toda de branco. Dona Beatriz sorriu. Pela formosura da pequena e pelo “moça” dirigido a ela.
Enquanto olhava para a menina, ela retribuía o olhar repetindo a frase “Bom ano, moça!”. Ela queria um dinheirinho. Se tivesse netos, daria um pouco das economias guardadas para eles. Não tinha, então o que importava fazer aquela garota feliz? “Entre um pouco, qual é seu nome?”. A menina, com passos lentos e curtos, entrava naquela sala escura. “Lúcia, meu nome é Lúcia”. “Que nome bonito! Espere um pouco, eu já pego seu presentinho”. Lúcia teve medo daquela escuridão. Andou um pouco, seguindo uma luz que vinha lá do canto. Foi se aproximando, afinal, criança que é criança tem que ser curiosa. E quando viu em cima da mesa aquele bolo, não acreditou. Dona Beatriz conversava com ela do quarto, aonde procurava em sua bolsa, em suas gavetas um trocadinho para a menina, mas não encontrava nada. Lúcia subiu na cadeira, debruçou na mesa e ficou observando o bolo, com aquela vela acesa.
Nada, dona Beatriz não achou nenhuma nota, nenhuma moeda. As últimas ficaram com o taxista. Ao retornar à sala, viu a menina em cima da cadeira. Ficou a observando por alguns instantes. Quando se aproximou, a pequena pediu: “Moça, posso cantar parabéns?”. Por que não? “Lógico, querida!”. E as duas cantaram. PARABÉNS PRA VOCÊ... Sem que desse chance a senhora, a menina foi rápida e apagou a vela. Aconteceu uma verdadeira festa de alguns instantes. Lúcia comeu um pedaço de bolo, contou algumas histórias, enquanto Beatriz ouvia atentamente.
Toda lambuzada com o chocolate do bolo, a menina disse que tinha que ir embora. Precisava pedir bom ano para seus tios, avós e vizinhos. Dona Beatriz acendeu as luzes e levou-a até a porta. Pediu desculpas por não ter nenhum dinheiro para dar a menina. Não tinha problemas, disse a criança. Lúcia fez um “tchau” para a senhora, deu um beijo nela, e se foi pelo corredor. Quando estava fechando a porta, se ouviu:
-Moça!
Dona Beatriz foi ver o que ela queria.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Sim, faça.
- Como você sabia que era meu aniversário?
Ficou em silêncio.
- Sabe, ninguém me faz bolo. Todos ficam dizendo: “Feliz Ano novo!”, “Feliz Ano novo!”. – continuou.
A senhora preferiu nem falar. A festa era da pequena. Ela, quem sabe, comemoraria no ano seguinte.
- Feliz Aniversário, querida!
- Obrigado moça!
E ela se foi. Mas dona Beatriz ainda pôde ouvir o último comentário da menina.
- E ela sabia até quantos anos eu fazia!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A arte de inventar pessoas

"Todo mundo que cruzou comigo, sem precisar parar,
está incorporado ao meu destino”
Otto Lara Resende


Inventar pessoas pode ser uma brincadeira interessante. Na verdade, quando somos crianças, muitas vezes acreditamos em amigos imaginários e que só existem no nosso universo. Mas talvez, o inventar pessoas extrapole o universo onírico de uma criança e, de fato, se torne uma constância na nossa vida, sem que percebamos.

Inventar parece um verbo forte, mas não deixa de ser afetuoso e criativo. É a brincadeira saudável do ser humano a vida inteira. Assim, concordemos, a cada pessoa que cruzamos em nossa história – que nada mais é que o nosso próprio universo construído – temos ali um novo personagem nesta nossa trama.

Ok,ok, uso aqui termos ficcionais, coisa de escritor. Talvez seja apenas para explicitar um ponto de vista. Porque não há nada mal inventar e ter as nossas pessoas. Cada um que nos atravessa o caminho ganha uma forma única em nosso olhar, em nossa vida, no encontro conosco. E só pra gente ela é desta maneira. Tem esta função.

Não sei mesmo se isso é coisa de escritor, que além de inventar pessoas na ficção, teima em tentar inventá-las e brincar disso na vida real. Seja como for, este é o meu conceito de invenção das pessoas para nós. Para cada um, somos de um jeito, temos nossa função naquela história, somos um personagem ali. E pelo mundo, nos encontros e desencontros da vida, estão as pessoas que eu inventei.

Por conta disso, tive vontade de olhar mais de perto para as pessoas reais da minha vida e traçar perfis afetivos sobre elas e de que maneira se tornaram e vivem como personagens da minha história. Por isso que eu digo que este é um processo diário de descoberta, de construção. E por isso que eu resolvi começar a escrevê-los, e postar aqui no blog na sessão “As pessoas que eu inventei”, onde, periodicamente, publicarei um perfil afetivo, como mesmo defini, de uma pessoa da minha história real ou fictícia (afinal, para quem cria as pessoas reais ou imaginarias ocupam o mesmo espaço).

Em breve, as minhas pessoas povoarão este blog através do meu olhar sobre elas. É preciso olhar com afeto e carinho, pois os personagens que a nossa história, definitivamente, são de uma importância única para cada passo que damos. Que inventemos cada vez mais. E quem sabe, um dia, estes perfis se reúnam em uma compilação chamada “As pessoas que eu inventei” (cujo nome também é o de uma peça de teatro minha inacabada, no qual o protagonista também tem esta visão de mundo e da própria vida).

terça-feira, 28 de julho de 2009

Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos



Vamos que vamos! Sempre!