
“É o Euclides da história tia?”, perguntou o menino. “Marcelo, vá se deitar. Está tarde já”, tentou disfarçar Yolanda. O menino continuava parado na sua frente, com o um olhar que insistia em perguntar “É ele? É ele mesmo tia?”. Não teve como fugir. Yolanda sentou o sobrinho no sofá. Era melhor contar. Ele queria saber, que seja assim. “É ele. Eu lembro-me direitinho daquela manhã. Estávamos brincando, quando de repente ouviu-se um barulho. Um barulho imenso. Começaram a gritar, chamar as crianças. Foi uma correria”. O menino ouvia atentamente. “Euclides me puxou e fomos ver o que estava acontecendo. Todos olhavam para o céu, mas nós não conseguíamos ver. Então ele saiu do meio de todos, correndo. Correu, correu tanto que nunca mais foi visto. Escafedeu-se”. “Mas dizem quem...”, tentou argumentar o menino. “Dizer todos dizem. Depois que Euclides sumiu, a mãe dele chorou tanto. Que dó dela. Mas sempre me disse que sabia que um dia o filho ia voltar. Não conseguiu esperar, mas ela estava certa. O pai dele também morreu. Ficou tão triste com o sumiço do filho,que nunca mais saiu de casa”. “Eu já ouvi dizer que ele tinha morrido”. “Lenda Marcelo. Euclides virou lenda na cidade. Tinha gente dizendo que ele tinha virado indigente na capital. Outros que ele tinha morrido por aí. Tinha gente dizendo até que ele era escolhido de Deus e tinha virado anjo”.
Doutor Batista andou circulando os arredores do galpão. Ah, não era bobo. Queria ver mesmo se era verdade essa história de que tinha um rapaz que faria o homem voar. Já anoitecia, quando seu velho carro, após ter enfrentado uma mata imensa chegou ali. Queria arranjar um jeito de observar o que estava construindo. Viu ele, movimentando, mexendo nas ferramentas, martelando daqui e dali. Simplesmente, aquilo que iria surgir era maravilhoso. Seriam asas que nos faria voar, como funcionaria tudo. Não sabia. Jamais naquela cidade haviam visto um avião, ou algo do tipo. Estavam atrasados no tempo.
Yolanda mexeu nas suas coisas. Reencontrou um retrato de Euclides, ainda criança. Os dois. Agora, ele o chama. Ligou para sua casa, a mãe atendeu, mas não entendeu nada. Ele apenas pediu para avisá-la. Para que fosse no lugar que ela sabia, tal hora. Queria vê-la. Chegou no horário. Bonita como sempre. Marcelo seguiu os passos da tia. Sabia sim, que iria se encontrar com Euclides. Euclides estava belo. Parecia noite de festa. “Por que você me chamou aqui?”, perguntou Yolanda. Ele pegou-a pela mão, deu os braços para ela. Ela não estava entendendo nada. Ele sorria para ela, como quando eram crianças. “Onde você esteve esse tempo todo?”, tomou coragem e perguntou. “Disseram até que você tinha virado anjo!”. Ele achou graça. “Eu fui conhecer o mundo”. Yolanda achou estranho. “Você conheceu o mundo correndo?”. Ele riu mais uma vez. “Correndo e voando, eu poderia dizer”. Ela não entendeu. Ele percebeu. “Não dê ouvidos para que essa gente anda dizendo, o homem pode voar sim”. “Mas como? Não pode, não temos asas, entende?”. “Pelo mundo a fora, a gente está voando há um bom tempo, Yolanda”. “O que era aquilo que passou no céu naquele dia?”. Ele tentou explicar. “Era um avião!”. “Um avi- o quê?”. “Avião! É uma espécie de uma máquina que permite que o homem voe”. “Mas é?”. Ele pediu para que a moça o acompanhasse até o galpão, precisava-lhe mostrar algo.
Doutor Batista liderou uma manifestação. Queriam acabar com Euclides, diziam até ser uma assombração. O Padre Geraldo, na igreja Matriz, pregava para as beatas a condenação do rapaz. Onde já se viu, ir contra as leis da natureza, Deus não deu asas para o homem, então que assim seja. Anunciou-se, por meio de falatório, fofoca, boca-a-boca, que o tal iria mostrar seu invento. Ninguém poderia faltar. Riam, diziam que ele não passava de um doido varrido.
“Isto é um avião?”, perguntou Yolanda, diante de uma construção que ela nunca tinha visto antes. “Não, querida, isto não é um avião”. Seus olhos brilharam. Quis tocar. Era impressionante de tão bonito aquilo. “Você que fez?”, perguntou. “Fui eu sim. Estudei muito pelo mundo para fazer isso. Tinha que voltar aqui. Mostrar para você que o homem voa e é lindo ver tudo lá de cima”. Ficaram em silêncio. Ela pensou. “Mostrar para mim?”, disse. Ele gaguejou. Ficou sem graça. Foi pego no pulo. “É, eu quis dizer, para você, para vocês aqui da cidade. Vocês que ainda acreditam no passado, sendo que a gente está muito além do futuro, entendeu?”. Euclides se aproximou do imenso objeto. Pegou uma flanela em seu bolso, deu uma lustrada. Bonito, estava brilhante. Como devia ser. “Nunca ouviu falar de Santos Dumont?”, perguntou ele. Yolanda observava encantada. “Então era para eu ver?”. Era não tinha como negar mais Euclides. “Vem comigo”, puxou-a pela mão. Subiu ali. “Eu não vou subir não”. “Vem comigo, vem!”. Tomou coragem e foi. Aquilo começou a levantar vôo. Quando ouviram lá debaixo. “Eu quero ir também!”. Marcelo olhava para cima, e seus olhos brilhavam. A pipa estava em sua mão. Euclides debruçou, se equilibrou, quase caiu, mas conseguiu ainda pegar na mão do menino para puxá-lo para dentro.
Então, estavam todos impressionados. Doutor Batista não viu. Foi para outro lado. Sabe-se que morreu, ao tentar, com asas costuradas na manga do paletó, pular de uma pedra. E naquele lugar as coisas passaram a acontecer como nunca havia acontecido. Assim, na rapidez da vida surpreendente, os anos passaram tão depressa, que ninguém percebeu. Teve gente que correu, teve gente que ficou. O galpão havia sido destelhado. Todos agora cercavam aquele lugar. E de lá de dentro o pequeno menino surgiu. Uma moça também. Juntos de Euclides. Subiram aos céus, e se confundiram com todas as estrelas a bordo de um dirigível. Tão iluminado, tão belo. Quiseram correr aqueles que pediram para ele voltar, como da outra vez. Não tinha mais volta. Jamais se desconfiou das coisas naquela cidade. Tudo era possível. E se o maior desejo de um homem é voar, e Euclides voou.




